Sociedades Secretas


Pouco analisada pelos historiadores, as sociedades secretas constituem um universo a parte no imaginário popular que transita entre a realidade e a fantasia. A falta de interesse pela história-ciência em relação às sociedades secretas pode ser explicada pelo fato de que a história destes grupos seja sempre sobrecarregada de versões que, além de não serem “oficiais”, orbitam o campo do fantástico, do mítico, do “proibido” e principalmente, do imaginário. Este fator gera uma profunda influência naquilo que é proferido sobre tais associações, pois “quando se tenta estudar a natureza e as atividades das sociedades secretas, fica muito difícil (às vezes quase impossível) separar o fato da ficção, a realidade de invenções seculares, a verdade das mentiras rematadas”. (KLEIN, 2007, p. 13).

Talvez seja por este motivo que a academia, representada por seus pesquisadores ilustres, mestres e doutores, mantenha as sociedades secretas quase sempre longe de seu objeto de estudo e, por muitas vezes, distante do seu campo de atuação. Isto também não quer dizer que haja uma atmosfera de perigo, de sujeição ou de medo que impeça a pesquisa científica sobre estas sociedades. Trata-se apenas de uma espécie de “pré-conceito” acadêmico que torna o estudo dessas associações secretas restrito apenas aos seus membros ou a certos curiosos do assunto. Contudo, como já acenamos anteriormente, a não investigação não prescreve a não existência do acontecimento. O fato ocorre independentemente da análise humana, sua averiguação faz parte de uma segunda etapa que pode, ou não, ser oficializado pela historiografia.

Manter algo para além do campo de visão ou simplesmente não tomar conhecimento, não implica afirmar a sua não existência. A história da humanidade se dá mediante uma sucessão de eventos pela qual o homem age e cria situações de influência sobre sua vida, sobre a vida dos seus contemporâneos e sobre a vida daqueles que ainda estão por vir. Neste sentido, se considerarmos as sociedades secretas como um produto da ação humana através dos tempos, podemos afirmar, sem risco de equívoco, que elas podem ser tomadas como objeto de estudo da Ciência histórica. Em outras palavras, queremos asseverar que as sociedades secretas, enquanto um fenômeno produzido pela ação humana através do tempo, pode e deve ser considerado um objeto de estudo da pesquisa historiográfica.

A Sociologia também é uma área de conhecimento cujo interesse pelas sociedades secretas poderia ser deveras pertinente. Sendo uma disciplina científica que se dispõe a analisar o processo de permanências e transformações ocorridas nas sociedades humanas, a Sociologia pode, por exemplo, investigar de que forma tais associações influenciam no desenvolvimento cultural, político e econômico das Sociedades em que elas encontram-se inseridas. Ora! Se as sociedades secretas estão inseridas na Sociedade e se a Sociologia é a “Ciência da Sociedade”, então é justo que ela pesquise, analise e descubra de que forma as ações de tais grupos reverberam nesta Sociedade. Estamos querendo dizer que se as sociedades secretas constituem, como diria Émile Durkheim, um “fato social”, então elas devem ser objetos de estudo da Sociologia.

Outra importante área do conhecimento que pode se debruçar e trazer importantes contribuições sobre as sociedades secretas é a Antropologia, pois se o seu escopo é “o estudo do homem”, acreditamos que ela poderá encontrar nas sociedades secretas, extenso material para pesquisa. Por isso, as origens das sociedades secretas podem ser mais bem explicadas a partir das investigações culturais nas comunidades primitivas pela ciência da Antropologia. Isso porque, prefigurando um campo do conhecimento que se propõe a estudar os agrupamentos humanos, tanto no presente quanto no passado, esta ciência traz grandes colaborações às pesquisas sobre as sociedades secretas.

Portanto, nesse primeiro momento, podemos concluir que as sociedades secretas se estabelecem como objeto de estudo das Ciências Humanas, em especial a História, a Sociologia, a Antropologia e quiçá a própria Psicologia Social com seus estudos acerca da Sociedade como um todo. O que se espera não é a verificação, a comprovação nem a veracidade dos dogmas, das doutrinas e das crenças dessas sociedades secretas; também não se trata de querer desvendar seus segredos, mas, tão somente, observar suas implicações e suas influências na Sociedade em geral.

Texto de Márcio J. S. Lima – Original AQUI