Fantasma na Psicanalise e no Livro


O conceito de fantasma marca a passagem da teoria da sedução traumática para a teoria psicanalítica, esta passagem estabelece uma ruptura no que diz respeito ao pensamento clássico sobre o sujeito e instaura um novo campo de experiência que Freud denominou psicanálise. Os conceitos apresentados são baseados no Seminário XIV, intitulado “A lógica do Fantasma” (1966) de Lacan.

A partir do estabelecimento desta nova dimensão, a psicanálise rompe com a redução do sujeito à objetividade e se insere, decididamente, no campo de um sujeito. É por esta razão que o conceito de fantasma vai se tornando cada vez mais importante dentro da teoria psicanalítica.

Podemos começar uma primeira aproximação do tema situando o fantasma em oposição ao sintoma no que tange ao campo da interpretação. Se por um lado o sintoma é da ordem do interpretável, o fantasma se insere em outra dimensão. O fantasma é uma dimensão apartada do resto da neurose. Ainda na esfera desta oposição entre fantasma e sintoma, podemos estabelecer uma diferenciação entre a psicanálise e as psicoterapias.  O sujeito da psicanálise é situado como não sendo passível de ser reduzido a uma expressão sintomática. Eis aqui inspiração para o titulo do livro (Ordem dos Fantasmas), pois, para além do sintoma, o sujeito encontra-se na ordem do fantasma.

Segundo Lacan, a função do fantasma é sempre a de tamponar a falta que marca a emergência do sujeito e que se apresenta na cadeia significante. Em psicanálise, não há uma noção de unidade, não há completude quando se está no campo do sujeito. É neste sentido que surge o fantasma, no intuito de estabelecer uma unidade que não há, de encobrir a falta. Como dito anteriormente, o fantasma não se encontra no campo do interpretável, está para além deste; assim, quanto ao fantasma, cabe à psicanálise levar o sujeito à sua travessia. É em torno deste ponto que se desenvolve o trabalho analítico. A cura vem por acréscimo.

Portanto, há uma superação do registro do imaginário em direção ao simbólico, em linhas gerais, pode-se dizer que a lógica do Fantasma é estabelecer uma redução do valor imaginário e uma ampliação do valor simbólico, em direção ao real.

O proposto por Lacan é justamente o desenvolvimento de uma lógica, a lógica que não há na fantasia e no imaginário; por isso o estabelecimento da primazia do simbólico representada em Ordem dos Fantasmas como argumento místico.


Neste sentido, não é possível desenvolver nenhuma articulação teórica sem se trabalhar a noção do sujeito da psicanálise; enfim, não é possível apresentar a lógica do fantasma sem antes apresentar a própria lógica da constituição do sujeito. A noção de fantasma não se encontra em um campo vazio, encontra-se no campo do sujeito. E não há como pensar o sujeito sem pensar a ética que acompanha as suas questões. Resumindo: sem os seus fantasmas o autor não decifraria os símbolos nas obras de Leonardo da Vinci!

Dr. Soares Brambilla - Psicanalista